ARTIGOS

Temperamento em bovinos

10.03.2011 • 10h03 | por João Eduardo Cervoni

O Temperamento é definido como o conjunto de respostas comportamentais apresentadas por um animal (ou conjunto de animais) ao ser manejado pelo ser humano, sendo o comportamento de um animal determinado por uma interação complexa entre características herdáveis com o ambiente ao qual está exposto.

Atualmente, tem havido crescente preocupação com o tema, principalmente em situações de grande proximidade com o rebanho, como em sistemas de confinamento e procedimentos de identificação, pesagem e vacinação, em que pesquisadores e pecuaristas avaliam-no através da análise do comportamento dos bovinos frente a situações rotineiras de manejo.
 
Há muitos motivos que justificam o estudo desta questão em bovinos de corte, e geralmente partem da pressuposição de que o melhor entendimento dos mecanismos de ação do temperamento bovino pode contribuir para a otimização de sistemas de produção. medo e ansiedade são estados emocionais indesejáveis nos bovinos, pois resultam em estresse e conseqüente redução no bem-estar dos animais. trata-se, além disso, de uma característica com valor econômico, pois a lida com animais nervosos (agitados, com medo, agressivos) freqüentemente implica em maiores custos, em comparação a animais mais calmos frente à ação humana, em função de maior tempo necessário durante as rotinas de manejo, necessidade de maior número de trabalhadores, maior risco à segurança dos mesmos, necessidade de melhor infra-estrutura de manejo e maior manutenção da mesma, além de prejuízos em características produtivas, como ganho de peso, rendimento de carcaça e qualidade de carne devido a contusões e estresse no manejo pré-abate, diminuição da eficiência na detecção de cio em sistemas que utilizam inseminação artificial.
Metodologias para avaliação
Não é muito simples medir o “temperamento” de bovinos de corte, pois esta característica compreende um conjunto de comportamentos, que muitas vezes são difíceis de serem diferenciados. Assim, a metodologia de avaliação deve permitir uma avaliação consistente, eficiente, segura e de fácil aplicação, para que possa ser usada nas fazendas.
 
De maneira geral, a avaliação do temperamento bovino apresenta duas categorias principais em relação às respostas apresentadas, referentes a avaliações com ou sem contenção física, pois nem sempre é possível comparar comportamentos apresentados sob contenção com aqueles apresentados na ausência dela, permitindo as respostas obtidas para testes com restrição otimizar procedimentos de manejo como pesagens e vacinações, ao passo que testes sem restrição relacionam-se mais a procedimentos de manejo realizados com o rebanho solto, como deslocamento, rodeio (reunião dos animais). Outros aspectos relevantes na determinação dos testes a serem utilizados, levam em conta custo com equipamentos, interferência nas rotinas de manejo da propriedade, facilidade de treinamento de mão de obra, quantidade de animais a serem testados.
Para avaliação do temperamento sob condições de restrição, as metodologias mais utilizadas consideram situações de contenção na gaiola da balança, realizando-se a avaliação durante pesagens de rotina ou situações de contenção em tronco de contenção, que normalmente ocorre durante manejos de marcação a ferro, aplicação de brinco de identificação, descorna, diagnóstico de prenhes. Nestes casos, o temperamento é avaliado, em escala categórica, em função do grau de tensão e agitação do animal durante o período de contenção (ou parte deste), usualmente atribuindo-se notas mais baixas para animais mais relaxados e parados e notas mais altas para animais mais tensos e agitados. Outros comportamentos que podem ser considerados nesta ocasião são vocalizações, defecações, coices, cabeçadas, audibilidade da respiração.

Já em situações sem restrição, as metodologias mais utilizadas consideram situações da rotina de manejo, como no caso da velocidade de saída (VS) ou velocidade de fuga, em que o temperamento é avaliado em escala contínua pela velocidade com que o animal sai da gaiola da balança ou do tronco de contenção. Utilizam-se dois pares de células fotoelétricas separadas por distância pré-determinada (usualmente dois metros), em que o cronômetro é disparado quando o animal passa pela primeira célula fotoelétrica e é interrompido quando passa pela segunda. Outra forma de avaliação muito utilizada em situações sem restrição, que usualmente ocorre fora da rotina de manejo, é a avaliação da distância de fuga (DF), em que o animal é conduzido a um curral vazio e um ser humano procura aproximar-se dele até que fuja, ataque, ou permita contato físico, avaliando-se o temperamento em escala contínua, mensurando-se a distância entre o ser humano e o animal, em metros, que o animal permitiu à aproximação humana.

Um exemplo de metodologia para avaliação de temperamento em bovinos sem restrição é a observação de um escala padrão de escores subjetivos atribuídos em função da reação comportamental típica do animal em relação à aproximação de um avaliador, quando este tentava tocá-los com suas mãos. Os escores variam de um (1), atribuído para os animais muito reativos, até cinco (5), atribuído para os animais muito dóceis. Este procedimento deve ser realizado em uma divisão de curral com aproximadamente 20m2, onde o animal se encontra isolado. A descrição detalhada das reações comportamentais pode ser observada na tabela seguinte:

Escala padrão de escores subjetivos atribuídos em função da reação comportamental típica do animal em relação à aproximação de um avaliador

Escore

Temperamento

Descrição

1

Muito Reativo

O avaliador tenta tocar o animal, porém o mesmo se mostra arisco, se esquiva e investe contra o avaliador, obrigando-o a se proteger subindo na cerca, sob a qual o animal inibe sua descida;

2

Reativo

O avaliador tenta tocar o animal, porém o mesmo se mostra arisco, se esquiva e investe contra o avaliador, obrigando-o a se proteger subindo na cerca, contudo a o animal permite sua descida;

3

Levemente Reativo

O avaliador tenta tocar o animal, porém o mesmo se mostra arisco e se esquiva, contudo não investe contra o avaliador;

4

Dócil

O avaliador tenta tocar o animal, porém o mesmo se esquiva e não deixa ser tocado, apesar de se mostrar tranqüilo e dócil;

5

Muito Dócil

O avaliador toca o animal, este se mostra tranqüilo e dócil, permitindo ser tocado.

 

 

Antes de promover seleção genética em favor ou contra determinados padrões comportamentais, são imprescindíveis pesquisas determinado e quantificando a natureza e a magnitude das relações entre o comportamento e outras características produtivas e adaptativas, a fim de se predizer as possíveis conseqüências de alterações comportamentais decorrentes de processos tradicionais de seleção. Via de regra, o equilíbrio será preferível aos extremos. Por exemplo, há estudos indicando que em confinamento, bovinos com temperamento calmo apresentam melhor desempenho em ganho de peso do que animais com temperamento nervoso. Entretanto, há evidências de que a seleção para bovinos com temperamento extremamente calmo possa conduzir a animais de baixo desempenho em sistemas extensivos, pois animais extremamente calmos podem apresentar comportamento letárgico, e não se deslocar o suficiente para permitir ingestão de forrageiras em quantidade e qualidade adequada, busca de outros recursos como sobra e abrigo, um touro pode não cobrir tantas vacas por ciclo quanto seria esperado, a vaca pode não ter tanto interesse pelo seu bezerro nem protegê-lo de predadores como seria necessário, o bezerro pode não ser vigoroso, sendo mais lento para ficar em pé e mamar e não sendo tão atento à vaca como seria importante em uma situação de perigo.
 
Além disso, uma ferramenta muito útil que tem se nas mãos para abrandar o temperamento do gado, mas que muitas vezes esquece de ser utilizada, é a possibilidade de atuar justamente no manejo, reduzindo a tensão do gado ao durante manejos de rotina, por meio de processos de habituação e aprendizado associativo ou condicionamento, em que seres humanos procedendo ao manejo de forma mais calma, evitando movimentos bruscos, gritos e pancadas tendem a reduzir tensão, medo e agressividade destes bovinos em manejos subseqüentes.

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